Nasce gay? Nasce hétero?

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  Há alguns meses, escrevi um relatório sobre a teoria do desenvolvimento psicossexual segundo Freud para um trabalho de pós-graduação na área de Psicopedagogia, e foi o que bastou para eu me tornar paranoico com o tema. Apesar da heteronormatividade do estudo, desde o dia em que eu finalizei os tópicos até hoje, tudo o que eu pensava saber sobre a sexualidade humana está caindo por terra, como um prédio que acaba de ser implodido.

  Antes de começar a argumentação, é preciso que você anule da sua mente a ultrapassada ideia de que o único propósito do sexo é a reprodução. Vale lembrar que eu não sou graduado em qualquer área dos estudos humanos, ou seja, se você quiser desconsiderar completamente tudo que eu disser durante esse artigo, ninguém vai te condenar por isso; o que eu fiz foi me aprofundar em estudos específicos da sexualidade humana por alguns meses, estudos estes que por si só, são passíveis de questionamento, então já peço desculpas antecipadamente caso eu fale bosta. É bom frisar também que, apesar de baseado nas teorias de Freud e Piaget, não vou me aprofundar sobre o assunto para evitar que o texto fique gigante.

  Mesmo tendo adotado o discurso “Born This Way” por muitos anos, a afirmação de que as pessoas nascem gays/hétero/bi/whatever nunca me convenceu 100%. Isso porque, na minha era homofóbica, eu havia estudado alguns casos de pessoas que, através de sessões de terapia psicanalítica, tiveram suas sexualidades revertidas para o “natural”; casos estes que eu usava para justificar meus ideais preconceituosos da época. Hoje em dia, claro, eu não reproduzo esse discurso, mas estudar sobre as teorias citadas acima plus Teoria Queer me fez revisitar essa parte sombria da minha história e os argumentos que eu utilizava. Percebi que esses pacientes não eram “corrigidos”, mas sim, reprogramados para sentirem desejo pelo gênero oposto a fim de se reintegrar na sociedade. E funcionava. Através dessas sessões, o “anormal” desenvolvia repulsa pela ideia de se relacionar com alguém de mesma genitália, o que por vezes exigia mais algumas horas de terapia para que o indivíduo aceitasse os seus atos cometidos no passado. Porém, todavia, entretanto, os profissionais da época realizavam esses procedimentos pois acreditava-se que qualquer outra identidade sexual além da hétero era um desvio da natureza, uma abominação, um comportamento promíscuo. Em nenhum momento, esses psicólogos/psiquiatras cogitaram a ideia de que a própria heterossexualidade poderia ser algo não-natural, o que tornaria esses tratamentos uma adequação social, não uma correção.

  Falar sobre desenvolvimento psicossexual e cognitivo é propôr análises sobre comportamento social, identidade humana e construção psicológica. Em resumo, é questionar a origem de cada um desses tópicos e entender como eles trabalham no cérebro de cada indivíduo; neste caso, a sexualidade resultante. Fazendo paralelos com as teorias de Freud, Piaget, teóricos queer e a própria natureza, a conclusão que se chega é que a heterossexualidade é tão construída socialmente quanto qualquer outra. Entende-se que o ser-humano nasce com capacidade de se relacionar com qualquer pessoa, mas através de estímulos, traumas e carências emocionais e afetivas, essa capacidade vai se limitando a determinados padrões, como por exemplo, homens ou mulheres, brancos ou negros, altos ou baixos. Sabe-se (há séculos) que os animais, tanto domésticos quanto silvestres, expressam comportamentos pansexuais como norma ao invés da heterossexualidade. Apesar da motivação ser diferente em cada caso, todos já obtiveram relações entre indivíduos do mesmo gênero documentadas, chegando até a relações homoafetivas duradouras (algo como um casamento), ou seja, não há preferência por um gênero em específico. Queira você ou não, a natureza é pansexual.

  “Ah, Iohan, mas também tem bicho que come merda, mata os filhotes, estupra os parceiros. E aí?”. Sim, há, mas são casos (na maioria das vezes) isolados, especistas. A questão aqui é que todos expressam a pansexualidade nos seus meios como uma regra, não uma exceção. Obviamente, há relações heterossexuais, caso contrário não haveria reprodução, mas o ponto é que todas as espécies, exceto o ser-humano, não faz distinção de gênero na hora de se relacionar com outro indivíduo, ou pelo menos não da maneira como nós fazemos.

  Ainda sim, a história nos prova que a diferenciação que conhecemos só começou a ocorrer com a ascensão da igreja católica. Dos doze imperadores romanos, apenas um demonstrava interesse exclusivamente por mulheres. Muito antes disso, tribos das ilhas de Nova Guiné, Fiji e Salomão acreditavam que o conhecimento sagrado só poderia ser transmitido através do coito homo. E a tão reproduzida frase “sexo entre iguais não gera filhos”, utilizada atualmente como forma de discriminação, era exaltada na Grécia Antiga. Sócrates, adepto das relações homoafetivas, dizia que o coito anal era a melhor forma de inspiração, e o sexo heterossexual, por sua vez, só servia para procriação.

  Quer exemplos mais recentes? Vamos usar o Brasil dos anos 1900, então. Nas cidades pequenas, era ridiculamente comum procurar por outros homens para se envolver sexualmente (geralmente garotos de programa ou muito pobres) e ser o ativo da relação, pois o ato de penetrar alguém do mesmo gênero provaria, em tese, seu poder de dominação, sua superioridade como macho alfa. Gay era apenas quem dava. Se duvida de mim, pergunte ao seu avô, ou até mesmo ao seu pai como essas coisas funcionavam naquela época. Pode até ser que eles não tenham transado com outro cara, mas que viram amigos nessa situação, isso eu posso lhe garantir. Por que eles não te contam isso? Bom, acho que você consegue imaginar.

  Entenda: eu não estou dizendo que se categorizar com alguma sexualidade é errado, e sim, apresentando estudos e fatos que apontam que estas são resultado de outros fatores além da biologia. Até porque é meio bizarro o nosso cérebro ignorar o caráter e personalidade da pessoa para colocar suas características fisiológicas como fator determinante da atração, né? Mas caso essas ideias ainda pareçam muito absurdas para você, deixarei logo abaixo alguns links que podem te auxiliar no estudo desse tema. Eu, assim como os estudiosos desse tópico, posso estar completamente equivocado nas minhas afirmações, mas é preciso ter acesso a elas antes de se posicionar contra ou a favor.

  Não há como escolher por quem você se sente atraído, óbvio, porém já podemos considerar que essas distinções que os nossos cérebros realizam são resultado de estímulos sociais e comportamentais absorvidos desde a nossa mais remota memória – ou seja, a sociedade não pode te culpar por ser quem ela forjou. Hétero, homo, bi, pan, ace, demi… Antes de qualquer sexualidade, somos humanos. Acredite: não há nada de errado com você, mesmo que o mundo se esforce para te fazer pensar que sim. A sua felicidade precisa sempre estar acima do julgamento alheio, então viva da maneira que você julgar correta, afinal, é aquele ditado: ninguém paga as contas.

  Obrigado por ler, e relaxa: vai dar tudo certo.

Desenvolvimento Psicossexual segundo FreudDesenvolvimento Cognitivo segundo PiagetTeoria QueerHomossexualidade na AntiguidadeHomossexualidade no mundo animal

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